Domingo, Fevereiro 05, 2012
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25 anos sem Vince Toth: justo preito à memória de um mestre

Vince Toth
Vince Toth [1915-1985]

Em 1985, falecia em Budapest o mestre húngaro Vince Toth, cujo nome completo era SZENTKIRALYI TOTH VINCE LUKAS.

Nascido em Keckskemét, em 1915, de origem nobre, campeão de seu país ainda muito moço, em fins da década de 30, enxadrista de categoria internacional, Vince Toth conseguiu sobreviver à segunda Guerra Mundial.

Nela perdeu quase tudo, menos naturalmente o juízo, a capacidade de trabalho e o acendrado amor ao xadrez, do qual se tornou autodidata exemplar, notadamente a partir de quando começou a estudar o "match" Capablanca x Alekhine", em 1927.

Trota-mundos, Vince Toth chegou a ser vice-campeão da Bolívia (!) e vencedor de um Torneio no "Manhattan chess Club" de Nova York, no qual abiscoitou o prêmio de US$ 1.000,00.

No Brasil, a partir de 1948, aqui se radicou, participando de alguns certames importantes, dentre eles o Torneio Internacional de São Paulo, de 1952, vencido por Engels e rabar, quando conquistou a terceira colocação (+7-4=5), e o do Rio de Janeiro, do mesmo ano, quando fes jus à quinta colocação, à frente de Souza Mendes, Mangini, Walter Cruz e Eugenio German, dentre outros.

Foi também campeão do Estado do Rio de Janeiro em 1970; curiosamente, 2 anos antes, em 1968, esse título havia sido conquistado pelo seu filho Peter Toth, um dos grandes valores do xadrez brasileiro, pai, aliás, de outro expoente, o jovem Christian Toth, hoje Mestre Internacional.

Como se vê, a familia Toth tem o xadrez na pele...

O destino foi averso aos mestres estrangeiros aqui chegados. Como Engels, depois eliskases, que terminou por naturalizar-se argentino, Toth enfrentou muitas dificuldades em nosso acanhado meio enxadrístico.

Fizeram-lhe falta mais torneios fortes em decorrência dois quais pudesse crescer e alçar outros vôos, bem assim a tranquilidade financeira para poder dedicar-se mais ao Nobre Jogo.

Num país como o nosso, onde a "ginástica da inteligência", como o conceituava Goethe, ainda hoje é relegada a plano secundário, imagine-se um mestre húngaro tentando sobreviver à base do xadrez nos anos 50!

Uma tarefa realmente penosa, ingente, por vezes dramática. Se Vince Toth tivesse tido condições favoráveis para permanecer na Europa de após-guerra, por certo teria chegado a grande mestre.

Em Fortaleza, realizou, juntamente com Luiz gentil, uma histórica (e inédita) simultânea a dois no Náutico Atlético Cearense, com quase 40 tabuleiros, obtendo 90% de aproveitamento.

No Rio de janeiro, anos depois, muitas vezes, participava do "Rock" (Torneio tradicional de relâmpago do Clube de Xadrez Guanabara) e em outros momentos analisava posições complexas com Luciano Belém, um dos seus bons amigos brasileiros, e Olício Gadia.

Vince Toth chegou a fabricar relógios de xadrez, inclusive relógios próprios para xadrez relâmpago, os quais se encontram em funcionamento até os dias de hoje.

Em 1976, assistimos a sua vitória no torneio do 61º aniversário do Tijuca Tênis Clube, à frente de Mangini e de toda a geração de novos talentos como. Dirk, Loureiro, Limp, dentre outros.

Em 1979, já sessentão, volta a Fortaleza para o 1º Campeonato Brasileiro Aberto, o "Brasileirão", oportunidade na qual produziu algumas partidas sugestivas de seu antigo brilho.

Mas a notícia de sua morte em 1985, em seu país natal, não passou despercebida de seus amigos e admiradores.

Acompanhe algumas de suas proesas:

N=cavalo
R=torre
K=rei
Q=dama
B=bispo

[A51]
Bauer - Toth,V
Sextangular Budapest, 1937


1.d4 Nf6 2.c4 e5 3.dxe5 Ne4

(a variante Fajarowicz. Boric, considera válida; Engels apreciava pela ponta de veneno; Reinfeld classifica como empreendedora; Reshevsky como manhosa; Evans julgava duvidosa. Menos arriscada é a variante clássica com 3..., Ng4, a qual se pode contestar com 4. e4, Nxe5 - 5.f4, Nc6 ou Ng6 e as brancas têm vantagem mínima)

4.Nf3 d6!?

(um tratamento de gambito mesmo; Aqui é indicado 5...., Nc6)

5.exd6 Bxd6

(armadilha já incorporada ao repertório livresco e a espaços repetida na prática; Chernev a inclui em seu livro "WINNING CHESS TRAPS", mas sem mencionar os contendores)

6.g3?

(as brancas não enxergam o perigo à vista. Aqui se impunha 7.Nbd2 para exigir uma definição do cavalo postado em pleno centro do território branco. Bauer incorre em "êrro de cruzamento", como denominava Walter Cruz, existindo g3, porém só depois de Cbd2. Idêntico erro foi cometido pelo irlandês Warren em jogo postal contra o holandês Selman, em 1930, tendo o primeiro inclinado o rei logo em seguida!)

6...Nxf2!

7.Qc2

[Se 7.Kxf2?? Bxg3+ ganhando a dama]

7...Nxh1

(as brancas assim perdem a qualidade e dois peões, mas tentam inútil resistência a caminho do matadouro)

8.Bg2 Nxg3 9.hxg3 Bxg3+ 10.Kf1 Qe7 11.Bg5?! Qc5 12.e3 Bf5 13.Qb3 0-0! 14.Nbd2 Nc6 15.a3

(prolongaria a luta com 15. Qb5, mesmo a custa de outro peão)

15...Rfe8 16.Rd1 h6 17.Bf4 Bxf4 18.exf4 Re3 19.Qb5 Bd3+

( e as brancas abandonaram. O final está perdido depois de 20.Kg1, Re1+ duplo desc. etc.)

0-1

[C57]
Sokia - Toth,V
Torneio de Viena, 1948

1.e4 e5 2.Nf3 Nc6 3.Bc4 Nf6 4.Ng5 Bc5!?

(a variante Wilkes-Barre ou Traxler. Trata-se de um contra-ataque venenoso com o qual Marshall e o Padre Traxler fizeram muitas vítimas. Todo cuidado é pouco, dizia Dr. Luiz Tavares, ex-campeão brasileiro)

5.Nxf7?!

(muita sede ao pote. Simples e efetivo, diz Evans, é [5.Bxf7+ Re7 6.Bd5! h6 7.Nf3 d6 8.Bxc6 bxc6 9.d3 (com melhor partida)]

5...Bxf2+!

6.Rxf2

(a aceitação do sacrifício é um equívoco, como se verá. Para Evans, fascinante é [6.Rf1 Qe7 7.Nxh8 d5 8.exd5 Nd4 9.h3 Ne4 10.Nc3 Ng3+ 11.Rxf2 Qh4 12.Rg1 Nxh1 13.Rxh1 Bxh3! (e empate)]

6...Nxe4+ 7.Rg1 Qh4 8.Qf1 Tf8 9.d3 Nd6! 10.Nxd6+ cxd6 11.Qe2 Nd4 12.Qd2 Qg4!

(não há defesas contra 13...Nf3+ ou 13...Ne2+ 0-1


[C13]
Hoffman - Toth,V
Torneio de Natal - Paris, 1949

1.e4 e6 2.d4 d5 3.Nc3 Cf6 4.Bg5 Be7 5.e5 Nfd7 6.h4

(o ainda temível ataque Chatard-Alekhine. Se agora 6..., Bxg5; 7.hxg5, Qxg5; 8.Nh3 dá vantagem às brancas)

6...c5!?

(golpe imediato ao centro e teoricamente adequado, de acordo com Evans. Maroczy recomenda 6....,a6 para impedir a entrada perigosa do cavalho. O lance de Vince, bastante ousado, conduz à perda do roque ou qualidade, ou de peça, como na partida. As pretas buscam compensações no maior desenvolvimento de suas peças) [6...Bxg5 7.hxg5 Qxg5 ( Aqui o Fritz 5 analisa: 8.Nh3 Qg6 (Fritz 5.00: 8...Qe7 ) ;

7.Nb5 0-0 8.Bxe7 Qxe7 9.Nc7 f6!

(fustiga-se outra vez o quadrado central, ao invés de Cb6, para recapturar o cavalo branco invasor. Toth sabe da importância vital do centro no jogo de xadrez)

10.exf6 Cxf6!? 11.Cxa8 cxd4 12.Dxd4 Cc6 13.Da4 Ce4!

(a rápida mobilização da cavalaria parece compensar a peça a menos. Em verdade, o cavalo branco está em a8 completamente fora de jogo)

14.f3

(contra Cf3 também vale o lance do texto)

14...Qc5 15.Ne2

[15.fxe4 Qf2+ 16.Rd1 Qxf1+ 17.Kd2 Rf2+ 18.Rc3 d4+ 19.Rb3 Qxg2 20.Rh3 Rxc2 21.Rb1 Rc5 E as brancas não resistiriam]

15...Ne5! 16.Nc7?!

(na expectativa de 16...Qxc7; 17. fxe3, assegurando a peça a mais. Não serve [16.0-0-0 devido a 16...Qe3+ 17.Kb1 Nf2 recuperando a torre com lucro. Na análise da posição, tem-se a impressão de desastre iminente por parte das brancas, impotentes para colocar seu exército em formação de combate. Vê-se aqui, mais uma vez, como tudo é relativo em matéria de xadrez, de resto na vida mesma: a torre a mais nada significa no cômputo geral, mais vale a efetividade das tropas de assalto diante do rei inimigo desprotegido.]

16...Rxf3!

(um golpe na nuca pelo qual as brancas não esperavam) [ganha também 16...Df2+ 17.Rd1 Cc4 18.Db4 a5 19.Dxf8+ Rxf8 20.fxe4 e o final é sem esperança para as brancas]

17.gxf3

(pagando pra ver)

17...Nxf3+

(os cavalos de Toth vão lembrar os de Chigorin, sobre os quais falou Engels em artigo dos mais interessantes. As brancas já podem deitar o rei, parar o relógio e apertar a mão do adversário. às vezes há quem espere um erro ou inversão do adversário, à última hora. Doutras, é o desejo meio masoquista de ir "till the bitter end")

18.Kd1 Nf2+ 19.Kc1 Qe3+ 20.Kb1 Nd2+ 21.Kc1 Nb3+

(a "bomba de hidrogênio" da qual nos fala Fine: O xeque duplo descoberto)

22.Kb1 Qc1+

0-1

e as brancas abandonam finalmente diante do mate "étouffée", também chamado "Philidor's legacy", conforme denominação de thomas Pruen em seu livro "An Introcuction to the History and Study of Chess", de 1804. Em verdade, porém, esse tipo de mate já era mostrado por Luis Lucena em 1497!!

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